Os desafios de informar em situações de conflito, violência e desastres estiveram no centro de uma mesa-redonda realizada esta quinta-feira, 24 de setembro, em Maputo, no âmbito das celebrações dos 45 anos do jornal Domingo. Sob o tema "O exercício do jornalismo em contextos de conflitos e desastres: contribuições para a democracia, paz e reconciliação nacional", o encontro reuniu jornalistas e representantes de instituições públicas, partidos políticos, da sociedade civil e da academia.
A iniciativa partiu da preocupação com a forma como a informação é recolhida, verificada e divulgada em momentos de crise. Nessas circunstâncias, a segurança dos jornalistas, a protecção das fontes e a circulação de conteúdos não verificados colocam desafios acrescidos à cobertura jornalística. A mesa-redonda procurou também reflectir sobre o contributo dos meios de comunicação social para o diálogo entre diferentes sectores da sociedade e para a participação informada dos cidadãos.
Na abertura, o Presidente do Conselho de Administração da Sociedade Notícias, Júlio Manjate, defendeu que a informação verdadeira e responsável é determinante para a construção de uma sociedade equilibrada. Sublinhou que os órgãos de comunicação social têm uma responsabilidade perante os cidadãos que vai além da rapidez na publicação ou da disputa por audiências.
Júlio Manjate associou também a qualidade da democracia à participação pública. "O que a nossa democracia precisa hoje em dia é de um maior comprometimento dos cidadãos", afirmou, defendendo o diálogo entre actores de diferentes sectores da sociedade. Na sua perspectiva, o jornalismo pode ajudar a criar condições para esse diálogo, ao oferecer informação fiável e espaço para o confronto responsável de ideias.
O responsável alertou ainda para os efeitos da desinformação sobre a opinião pública e defendeu uma imprensa livre e responsável, capaz de enfrentar conteúdos falsos ou enganosos. Referiu igualmente a transformação digital como um desafio que exige investimento em plataformas e na formação de jovens profissionais, para que os meios de comunicação acompanhem as novas formas de acesso à informação.
Também na sessão de abertura, o Coordenador de Programas do Instituto para Democracia Multipartidária (IMD), Osman Cossing, em representação do Director Executivo, salientou que a informação pode ter efeitos opostos em períodos de tensão. "Em contextos de conflito ou de forte tensão social, a informação pode contribuir para esclarecer, aproximar e reduzir tensões. Mas, quando é manipulada, divulgada sem verificação ou utilizada para aprofundar divisões, pode também contribuir para aumentar a desconfiança e a polarização", afirmou.
Osman Cossing observou que a rapidez das redes sociais e o recurso à inteligência artificial tornam mais difícil distinguir conteúdos verdadeiros de conteúdos fabricados. Perante a pressão para publicar primeiro, considerou que "o valor do jornalismo pode estar precisamente em ser aquele que verifica, contextualiza, questiona e assume responsabilidade pelo que publica". Para o representante do IMD, informação credível e diversificada permite aos cidadãos formar as suas próprias opiniões e participar de maneira mais esclarecida na vida democrática.
O encontro realizou-se na véspera do 45.º aniversário do domingo, cuja primeira edição foi publicada em 25 de setembro de 1981. A iniciativa foi promovida pela Sociedade do Notícias, através do semanário, em parceria com o IMD. A participação do IMD enquadra-se em programas financiados pela Embaixada da Irlanda e pela Open Society Foundations.











