A Coordenadora Residente das Nações Unidas em Moçambique, Catherine Sozi, defendeu nesta quarta-feira, 20 de Maio, em Maputo, que não pode existir paz sustentável sem a participação plena e significativa de mulheres nos processos de tomada de decisão, alertando para os impactos combinados dos conflitos armados, eventos climáticos extremos e crises económicas sobre as mulheres moçambicanas.
Falando na abertura da mesa-redonda sobre o Plano de Acção Nacional sobre Mulheres, Paz e Segurança, Catherine Sozi considerou que a agenda de Mulheres, Paz e Segurança é essencial para promover inclusão, coesão social e estabilidade duradoura. “Em todo o mundo, as mulheres continuam a demonstrar que, quando participam plenamente nos processos de tomada de decisão, os resultados tornam-se mais inclusivos, as comunidades mais resilientes e os processos de paz mais sustentáveis”, afirmou.
A responsável das Nações Unidas reconheceu os avanços alcançados por Moçambique nesta agenda, mas advertiu que persistem desafios significativos ligados à violência baseada no género, aos conflitos armados e às desigualdades sociais.
Segundo Catherine Sozi, os desafios associados ao conflito no norte do país, bem como os impactos dos eventos climáticos extremos, reforçam a necessidade de fortalecer os mecanismos de participação feminina nos processos de paz e reconstrução social. “Sabemos que as mulheres não são apenas afectadas por estas crises. As mulheres são também líderes, mediadoras e agentes fundamentais de transformação nas suas comunidades”, declarou.
A Coordenadora Residente destacou ainda o papel desempenhado por iniciativas comunitárias lideradas por mulheres, apontando exemplos como as Sentinelas da Paz, Campeãs da Paz e Mediadoras do Movimento Mulher e Paz, que têm contribuído para promover reconciliação, diálogo e coesão social em diferentes comunidades do país.
Para Catherine Sozi, o novo Plano de Acção Nacional representa uma oportunidade estratégica para transformar compromissos políticos em acções concretas. A responsável revelou que o novo plano conta com apoio técnico e financeiro das Nações Unidas, através da ONU Mulheres, e do Governo da Noruega. “O novo Plano representa uma oportunidade importante para acelerar progressos, fortalecer mecanismos de implementação e ampliar os espaços de liderança e participação significativa das mulheres”, afirmou.
A representante das Nações Unidas anunciou igualmente que Moçambique participará, pela primeira vez, na reunião global da Rede de Pontos Focais sobre Mulheres, Paz e Segurança, que terá lugar no próximo mês, em Roma, considerando que o país tem potencial para afirmar-se como referência internacional nesta matéria.
Por sua vez, o Embaixador da Irlanda em Moçambique, Patrick Empey, defendeu que a experiência internacional demonstra que os processos de paz só produzem resultados duradouros quando incluem activamente mulheres, comunidades locais e organizações da sociedade civil.
Partilhando lições da experiência irlandesa nos processos de reconciliação e construção da paz, Patrick Empey estabeleceu paralelos com os desafios enfrentados por Moçambique, sobretudo nas regiões afectadas por violência armada, deslocamentos forçados e fragilidade social.
Segundo o diplomata, durante décadas de conflito na Irlanda do Norte, as mulheres desempenharam um papel central na manutenção do diálogo comunitário, apoio às vítimas, preservação da coesão social e reconstrução da confiança entre comunidades divididas. “A paz não se resume apenas ao fim da violência: trata-se de edificar uma sociedade na qual as pessoas possam viver juntas no futuro”, afirmou o embaixador irlandês.
Patrick Empey destacou que uma das principais lições retiradas da experiência irlandesa é que acordos negociados exclusivamente por actores políticos e militares tendem a ser insuficientes para assegurar estabilidade duradoura. “Os processos de paz são mais fortes e duradouros quando são inclusivos”, declarou, acrescentando que a participação comunitária e o envolvimento das mulheres ajudam a reforçar a legitimidade social dos processos de reconciliação.
O diplomata sublinhou ainda que a segurança não deve ser entendida apenas numa perspectiva militar, defendendo uma abordagem mais ampla centrada nas condições de vida das populações. “As comunidades vivem a insegurança através da pobreza, exclusão, trauma, discriminação e quebra da confiança”, afirmou, numa referência a desafios que continuam presentes em diferentes contextos afectados por conflitos e instabilidade social.
Patrick Empey chamou igualmente atenção para a necessidade de investir na reconciliação e recuperação da confiança social mesmo após o fim dos conflitos, alertando que os efeitos da violência podem prolongar-se durante gerações através de problemas sociais, trauma psicológico e desconfiança nas instituições públicas.
O Embaixador da Irlanda reafirmou a disponibilidade do seu país para continuar a apoiar Moçambique “técnica, financeira e politicamente” na implementação da agenda Mulheres, Paz e Segurança.
A mesa-redonda reuniu representantes do Governo, Nações Unidas, corpo diplomático, organizações da sociedade civil e parceiros de cooperação, no quadro do processo de aprovação do novo Plano de Acção Nacional sobre Mulheres, Paz e Segurança.
A iniciativa é promovida pelo Instituto para Democracia Multipartidária (IMD), no âmbito dos projectos Mulheres, Paz e Segurança, Promovendo a Democracia e do Programa Promovendo o Acesso à Justiça, com financiamento da União Europeia, da Embaixada da Irlanda e da Embaixada do Reino dos Países Baixos.











